Educação Infantil e o Abismo da Transição para o Ensino Fundamental: Educação não pode ser Colcha de Retalhos
Por: Professora Cida
Pesquisadora e Idealizadora do Programa "A Voz do Giz"

"Do tônus muscular ao acolhimento sensorial: Como o Projeto Travessia propõe unificar a rede municipal através da ciência e do afeto.
"Se eu não entendo o espaço no meu próprio corpo, como vou entender que a leitura se faz da esquerda para a direita?" Essa pergunta, simples e profunda, resume o drama silencioso que muitas crianças enfrentam ao sair do CMEI e entrar no 1º Ano em nossa rede municipal.
Como pesquisadora que investiga o cotidiano escolar, preciso ser corajosa: a nossa educação em Imbituba corre o risco de se tornar uma colcha de retalhos pedagógica. O papel da Secretaria aceita diretrizes, mas no chão da escola, o que vemos é uma fragmentação perigosa.
A Escrita não é Lápis, é Tônus Muscular
Muitas vezes, a transição é vista como um salto abrupto. Exige-se que a criança sente e escreva, ignorando que o "alfaletrar", como ensinava a mestra Magda Soares, começa muito antes do lápis chegar ao papel. Começa no rastro que a criança faz na areia da praia, na escuta de uma história, no ato de rasgar, amassar e abotoar.
Isso é motricidade fina; é tônus muscular. Sem o trabalho de base na Educação Infantil, a escrita vira dor física para o aluno no Ensino Fundamental.
O Problema: Rotatividade e Fragmentação
A realidade é dura: temos escolas tradicionais dividindo muro com propostas Montessorianas, enquanto a alta rotatividade de professores ACTs quebra o vínculo e a continuidade do planejamento. Se o professor muda todo ano e a metodologia não tem unidade, o que resta para a criança?
A educação precisa ser uma política de Estado, e não apenas de governo. Não adianta a gestão dizer que está tudo bem se o professor na ponta sente a fragmentação.
A Solução: O Projeto Travessia e o "Currículo Vivo"
Baseada nos estudos de Lino de Macedo, reforço que a transição não é um salto no escuro, é maturação. Para evitar que a criança caia no abismo entre o CMEI e o 1º Ano, proponho três frentes de ação imediata para Imbituba:
O Portfólio de Transição (Memorial de Conquistas): Um documento que acompanhe o aluno. O saber não pode se perder na troca de professor.
Formação Continuada Real: Planejamento conjunto, com professores do Pré e do 1º Ano sentados à mesma mesa, alinhando as habilidades preditoras.
Currículo Sensorial (Neurociência): O sistema límbico precisa se sentir seguro para que o córtex pré-frontal aprenda a ler. É aqui que entra o nosso projeto "Cheiro de Vida", trazendo o acolhimento sensorial para a sala de aula.
O Respaldo Federal e o Despertar de Imbituba
Não estamos isolados nessa luta. O Governo Federal, através do Proleei (Programa de Leitura e Escrita na Educação Infantil), já estabeleceu as diretrizes para que essa transição seja pautada na ciência e no respeito à criança. É louvável perceber que o município de Imbituba já mantém suas "antenas ligadas", iniciando o treinamento de formadores para este programa. Este é um primeiro passo fundamental. O Projeto Travessia chega para somar, garantindo que esse conhecimento técnico da formação não se perca na burocracia, mas vire prática pedagógica real para o professor que está na ponta, combatendo a rotatividade e unificando a nossa rede.
Crônica: A Menina, o Giz e a Ponte
Imagine uma pequena moradora da nossa Imbituba. Ela acorda cedo, coloca a mochila e, no CMEI, ela é a dona do mundo. Ali, o aprender tem cheiro de massinha, tem o som das histórias contadas em roda e a liberdade de desenhar o sol do tamanho que o coração pedir. Ela brinca, rasga papel, pula corda e, sem saber, está preparando o corpo para o maior desafio da sua vida.
Mas, de repente, o calendário vira. Ela cruza o muro e chega ao 1º Ano. O mundo, que era redondo e colorido, agora parece quadrado e silencioso. Pedem que ela fique sentada por horas. Entregam um lápis e dizem: "Escreva". Mas ninguém perguntou se a mãozinha dela já tem a força necessária, ou se o coração dela ainda sente falta do acolhimento que ficou do outro lado do muro.
Essa menina é o retrato do nosso desafio. Entre o CMEI e o Ensino Fundamental, existe um abismo que não deveria estar ali. É nesse vazio que o saber se perde e o entusiasmo da criança silencia.
Ver que Imbituba já ligou suas "antenas" para o Proleei, treinando formadores, me enche de esperança. É o sinal de que a gestão está atenta. Mas a minha voz, calejada por 37 anos de sala de aula, não me deixa calar: o treinamento no papel precisa virar carinho e técnica no chão da escola.
O Projeto Travessia não é apenas um plano pedagógico; é uma promessa que fazemos a essa menina. É dizer a ela: "Não se preocupe, nós construímos uma ponte. O que você aprendeu lá, nós vamos continuar aqui".
Educação não é um amontoado de retalhos costurados às pressas conforme muda o governo. Educação é um bordado feito com paciência, ciência e, acima de tudo, hospitalidade. Que o nosso giz nunca deixe de desenhar pontes, para que nenhuma criança de Imbituba precise aprender a ler sentindo medo ou solidão.
Porque, afinal, um cérebro que se sente seguro é um cérebro que floresce.