Alfaletrar: A Voz do Giz em Conexão com a Formação Municipal

Esta semana, o programa A Voz do Giz e o portal da Rádio Lagoa Doce acompanharam de perto um ciclo intenso de qualificação e debate pedagógico em Imbituba. Unimos a teoria de Magda Soares, a inclusão através do DUA e as diretrizes do Alfabetiza SC em um só movimento.
Formação de Referência: 1º e 2º Ano
As formações presenciais foram conduzidas pelas formadoras Joelma da Silva Gabriel e Siméia Goulart, que mediaram os estudos do ciclo de 1º e 2º ano da rede municipal. Sob a orientação delas, os professores mergulharam na prática do planejamento e na superação de desafios em sala de aula.

DUA e Inclusão
Com base nas orientações das formadoras e em materiais de referência como a Nova Escola, discutimos o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA).
Barreiras e Estratégias: Elencamos barreiras físicas, comunicacionais e atitudinais, traçando estratégias para garantir que a diversidade cognitiva seja respeitada no processo de alfabetização.
Dados Reais: Refletimos sobre o Censo Escolar 2024, que aponta um aumento de 58,7% nas matrículas da Educação Especial, tornando o DUA uma ferramenta indispensável para os professores de Imbituba.
As Vozes na Rádio Lagoa Doce
Enquanto os professores planejavam, levamos o debate para a comunidade com convidadas de peso:
Lucimar Ferreira da Silva Oliveira (19ª CRE): Trouxe a visão da gestão regional e da ciência da linguagem para o acompanhamento pedagógico.
Luciana Andréia Vijales: Partilhou saberes e práticas metodológicas essenciais para o sucesso do aluno em todos os níveis de ensino.

A Pedagogia da Escuta e do Chão: O Manifesto do Alfaletrar
Educar é compreender que, embora o livro didático sirva como um mapa necessário, o aluno é o território vivo, vasto e imprevisível. Sob essa ótica, o "erro" da criança deixa de ser uma falha para se revelar como uma hipótese legítima sobre o sistema de escrita. Ao observar que um aluno escreve "KVALO" para cavalo, o docente atento não enxerga um equívoco, mas a prova de que o valor sonoro silábico já foi conquistado. É nesse diagnóstico fino que o planejamento se torna potente: ao anotar como a criança pensa, o professor oferece o desafio exato para a transição à fase alfabética, algo que a estaticidade de um livro jamais alcançaria sozinho.
Essa prática exige um domínio profundo das facetas linguística e sociolinguística. Entender a fonologia permite que o professor acolha a bagagem cultural do aluno, ensinando que a escrita possui uma norma própria sem agredir a identidade de quem fala. É um exercício de tradução: transformar o som que a criança conhece na letra que ela precisa dominar, respeitando sua história.
Nesse processo, é preciso abandonar a ilusão romântica do "estalo" da alfabetização. O que existe, na verdade, é uma construção meticulosa de infraestrutura mental e conexões neurais. Cada leitura de deleite, jogo de rimas ou treino fonológico é um tijolo em um andaime pedagógico bem montado. Quando a criança finalmente lê, não presenciamos um passe de mágica, mas a consolidação de um esforço paciente e contínuo.
Essa jornada exige uma autonomia docente inegociável. Inspirados pelo "Alfabetizar Letrando" de Magda Soares, não nos tornamos escravos de métodos puros, sejam eles fônicos ou globais. A autonomia reside na capacidade de diagnosticar a necessidade do momento: ora o foco é a mecânica do som, ora é a imersão em práticas sociais de leitura através de textos reais. Esse ensino é, em sua essência, um ato político e social. Alfabetizar em Imbituba é entregar as chaves da cidade às crianças; é garantir que os alunos deixem de ser espectadores para se tornarem autores de suas próprias histórias, participando ativamente da cultura local.
Por fim, esse compromisso só se sustenta através da formação continuada. Entender que a ciência da leitura evolui transforma o estudo em uma ferramenta de justiça, evitando que a prática docente se torne obsoleta. Ao abraçar a educação continuada — um dos pilares fundamentais do programa — o professor encontra motivação nas novas evidências científicas, descobrindo soluções mais eficazes para as angústias da sala de aula e reafirmando, diariamente, seu papel como profissional da esperança e do saber.
Planejamento e Alfabetiza SC
Na quinta-feira, o foco foi o Planejamento dentro do Alfabetiza SC. As formadoras Joelma e Siméia orientaram os professores na construção de planos de aula com intencionalidade pedagógica, garantindo que as facetas do Alfaletrar (Linguística, Interativa e Sociocognitiva) de Magda Soares sejam trabalhadas de forma integrada.
Crônica: A Voz que Risca o Silêncio
Dizem que o giz é uma matéria silenciosa, que se desgasta para dar forma ao pensamento alheio. Mas em Imbituba, nesta semana, o giz decidiu falar. E não falou sozinho. Ele ganhou o timbre das ondas da Rádio Lagoa Doce e a profundidade de quem mergulha nos livros para entender o mistério da escrita.
A cena começou com o rádio ligado. De um lado, Lucimar Ferreira trazia a voz da gestão, uma voz que sabe que por trás de cada índice da 19ª CRE existe um rosto, uma criança, um futuro. Do outro, Luciana Andréia traduzia a metodologia não como um manual frio, mas como um "saber-fazer" que pulsa no cotidiano. Ali, o improviso não era falta de roteiro; era o transbordamento de quem domina o que faz.
Enquanto isso, nas salas de formação, o ar estava carregado de uma intencionalidade quase palpável. Sob o olhar atento de Joelma da Silva Gabriel e Siméia Goulart, os professores do 1º e 2º ano redesenhavam seus mapas. Ali, o Alfabetiza SC deixou de ser um documento para se tornar um compromisso. Falou-se em planejamento, mas um planejamento que, desta vez, trazia uma lente especial: a do DUA.
Na terça-feira, o conceito de Desenho Universal para a Aprendizagem entrou na sala como quem abre uma janela. Olhamos para os dados do Censo Escolar — aqueles 2,1 milhões de alunos que a história, por vezes, tentou deixar à margem — e decidimos que a barreira não seria mais o ponto final, mas o ponto de partida para a estratégia. Se Magda Soares nos ensinou que o Alfaletrar tem facetas, o DUA nos lembrou que cada aluno tem um ângulo único para enxergá-las.
No fim, o que fica desta semana não é apenas um relatório de atividades. É a crônica de uma cidade que entende que alfabetizar é um ato político, pedagógico e, acima de tudo, humano. O giz se gasta, é verdade. Mas as vozes de Joelma, Siméia, Lucimar e Luciana garantiram que, desta vez, o que foi escrito no quadro e ecoado no Programa “A Voz do Giz”, com a Professora Cida na rádio Lagoa Doce, jamais será apagado pelo tempo.
O giz agora tem voz. E ela é de todos.